Dicas de livros (Não RPG) para a criação de cenários

sherlock-_-a-study-in-scarletA construção de um cenário não é algo fácil e por isso é bom ter as suas fontes e a vivência pessoal e nos próprios jogos. Às vezes seu ex-namorado pode ser um dragão, a garota na qual você está interessado, uma princesa. Seu bairro pode ser transportado formando um reino… Há muitas ideias. Aqui, vamos citar sugestões de livros para ampliar esse conhecimento e utilizar nos livros. Quem saiba, no futuro, faço um só com livros de RPG dedicados a esse tema, que são vários. O RPG e sociedade medieval deve voltar em breve.

A estrutura da descrição dos livros é a seguinte: “Nome em português (Nome na língua original ou em inglês, autor(es), ano da primeira edição, edição mais recente no Brasil)”.

Descrição de personagem

Em tese, qualquer livro traz a descrição de seus personagens principais, quando o livro é em primeira pessoa, ele se descreve, mas logicamente ele pode “roubar” a seu favor, a não ser que este tenha baixo auto-estima. Por vezes também há um narrador (onipresente ou não) que pode dar a sua descrição do personagem, a partir de seu ponto de vista do personagem. Aonde que eu quero chegar? Em Um estudo em vermelho (A Study in Scarlet, Sir Arthur Conan Doyle, 1887, várias editoras). Neste livro podemos ver a descrição que o senhor Watson dá para Sherlock a partir da simples observação. Como se trata do primeiro livro do personagem, era fundamental que ele fosse bem apresentado aos leitores e de certa forma, essa é a primeira ficha de personagem existente, com uma descrição ampla dos conhecimentos do personagem e pode ser usada como base para a descrição de outros. Aqui, o trecho:

“Estive a ponto de perguntar-lhe qual era esse trabalho, mas qualquer coisa na sua maneira me indicava que a pergunta não seria bem recebida. Refleti, no entanto, sobre a nossa breve conversação, e esforcei-me por tirar algumas deduções. Ele dissera procurar exclusivamente os conhecimentos que se relacionassem com o seu objetivo. Por conseguinte, todos os conhecimentos que possuía eram-lhe necessariamente úteis. Enumerei mentalmente todos os diversos pontos sobre os quais se revelara excepcionalmente bem-informado. Servi-me mesmo de um lápis e fui anotando-os. Não posso deixar de sorrir ao ver o documento resultante das minhas observações. Ei-lo:

CONHECIMENTOS DE SHERLOCK HOLMES
1. Literatura: zero.
2. Filosofia: zero.
3. Astronomia: zero.
4. Política: escassos.
5. Botânica; variáveis. Conhece a fundo a beladona, o ópio e os venenos em geral. Nada sabe sobre jardinagem e horticultura.
6. Geologia: práticos, mas limitados. Reconhece à primeira vista os diversos tipos de solo. No regresso dos seus passeios, mostra-me manchas nas calças, e diz-me, pela sua cor e consistência, em que parte de Londres as conseguiu.
7. Química: profundos.
8. Anatomia: exatos, mas pouco sistemáticos.
9. Literatura sensacionalista: imensos. Parece conhecer todos os pormenores de todos os horrores perpetrados neste século.
10. Toca bem o violino.
11. É habilíssimo em boxe, esgrima e bastão.
12. Tem um bom conhecimento prático das leis inglesas.

Quando cheguei a esse ponto da minha lista, perdi o ânimo e atirei-a no fogo. “Se a única maneira de descobrir o objetivo deste homem consiste em conciliar tais qualidades e depois buscar uma profissão que as exija”, disse comigo, ‘mais vale renunciar de uma vez a semelhante tentativa’.”

JornadadoHeroiA jornada do herói

Continuando na descrição de personagem, no caso para a criação de NPCs importantes: O Herói de Mil Faces (The hero with a thousand faces, Jospeh Campbell, 1949, Cultrix/Pensamento) descreve a jornada do herói, em forma de círculo, batizada “monomito” na qual o herói cumpre a jornada a partir do ser chamado para a aventura, a recusa, a iniciação e o retorno a vida comum. Outros autores abordaram esse tema: A Jornada do Herói: Vida e obra (The Hero’s Journey: Joseph Campbell on this life and work, Phil Cosineau, 1990, Agora Editora) que é a biografia do Joseph Campbell e suas últimas entrevistas, na qual se estabelece uma versão resumida do Monomito e também A Jornada do Escritor (The Writer’s Journey: Mythic Structure For Writers, Christopher Vogler, 2007, Editora Aleph) na qual é feito a partir da análise de vários filmes, já que este trabalha em Hollywood. No texto citam 8 arquétipos e 12 estágios da jornada. Veja também esse link sobre como criar uma história coerente tendo como base a jornada do herói.

Criação de deuses

Filipino Mythology Creatures

Extraído de mariitphilippines.blogspot.com

Na escola há foco em deuses greco-romanos e egípcios, na qual por vezes são citados os deuses tupi-guarani, há mitologia celta, indonésia, japonesa, chinesa entre muitas outras. Para usar como base, há muitos livros de referência sobre deuses como Guia Ilustrado Zahar – Mitologia (DK Eyewitness – Mythology, Philip Wilkinson & Neil Philip, 2010, Jorge Zahar Editor), A Bíblia da Mitologia (The Mythology Bible, Sarah Bartlett, 2010, Pensamento) e Livro de Ouro dos Deuses e Deusas (Gods and Goddesses: A Treasury of Deities and Tales, 1996, Elizabeth M. Hallan, Ediouro). Além desses, há vários dicionários de Mitologia, que são fáceis de serem encontrados em sebos. Veja também essa classificação de Deuses por tipo presente na Wikipédia e é baseada nos livros Motif-Index of Folk-Literature (Stith Thompson, 1955, não disponível no Brasil). Ele também estabeleceu o Sistema de classificação Aarne–Thompson em conjunto com Antti Aarne no qual estabelece uma classificação para contos de fada e sobrenaturais.

Voltando ao assunto, os deuses podem ser personagens complexos e com grande influência no mundo. Geralmente um deus da guerra como Ares, Odin e Marte podem ser diferentes, mesmo regionalmente dentro de um mundo, formando mitologias complexas.

dicsimSímbolos

É importante saber escolher um símbolo para representar bem algo, como uma cidade que sofreu várias destruições e ressurgimentos poderia ter uma fênix como símbolo. Apesar dessa história ser bem padrão, a representação da Fênix em outro mundo poderia ser a borboleta, que “morre” como cigarra, transforma-se em casulo. Há diversas interpretações. Para sugestões de uso da simbologia sugiro o Dicionário dos Símbolos (Dictionnaire des symboles, Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, 1969, José Olympo) há muitos outros, mas esse é o melhor.

cidade

Detalhe de A História da Cidade, Leonardo Benévolo

Cidades

Partindo dos deuses vamos às cidades. Há muito para descrever uma cidade: a Arquitetura, os habitantes, as condições sociais, a poluição, as indústrias, os transportes… A cidade em si tem tantos detalhes que se você ficar em casa observando pela janela não notará. Vou citar dois trabalhos sobre a história das cidades, na qual é possível investigar esses meios: História da Cidade (Storia della città, Leonardo Benevolo, 1975, Perspectiva) e A Cidade na História: Suas origens, transformações e perspectivas (The ciity in history, Lewis Mumford, 1961, Martins Fontes) que abordam os diversos tempos históricos da cidade a partir do ponto de vista de arquitetos e urbanistas, com muitos mapas. Também há três livros que foram publicados pela Editora Contexto que foram publicados na série Repensando a Geografia que resumem essas obras: A Cidade (Anna Fani A. Carlos, 2008, Contexto), A Vida nas Cidades (Eliseu Savério Spósito, 1996, Contexto) e Capitalismo e Urbanização (Maria Encarnação B. Sposito, 1996, Contexto). Sobre as cidades antigas dois livros. Primeiro sobre a cidade medieval, O apogeu da cidade medieval (L’Apogèe de la France Urbaine Medievale in Histoire de la France urbaine París, 1980, Jacques Le Goff) e já que  as cidades de mundos de fantasia chegam mais próximas das cidades greco-romanas do que as medievais, então o melhor é A Cidade Antiga (La Cité antique, Fustel de Coulanges, 1864, Martin Claret) que traça a vida nas sociedades mencionadas.

Livros de Geografia

A Geografia é uma ciência complexa e que possui várias subdivisões. Aqui, a minha sugestão é simples: Pegue aquele livro do segundo grau que abrange todo o conteúdo dos três anos e dê uma olhada. Nele, são descritos coisas como o clima, vegetação, demografia, cultura, divisões regionais e material já dito aqui como a vida nas cidades. O uso da Geografia é importante para deixar o mundo mais “redondo” bem a se dizer.

E tem mais

Para pegar ideias, há muitos títulos interessantes como os Guia dos Curiosos (Marcelo Duarte, 1995, Panda Books) e suas muitas variantes: Curiosas, invenções, sexo, o que for, são bons para pegar ideias. Eles são versões de antigos almanaques como o Almanaque Sadol que era distribuído em farmácias e o Almanaque do Pensamento. O site archive.org tem algum almanaques em língua inglesa e em espanhol. Da mesma forma que os almanaques e relacionados a curiosidades temos dois livros interessantes da série 1001: 1001 Ideias que mudaram a nossa forma de pensar (1001 Ideas That Changed the Way We Think, Robert Arp, 2013, Sextante) e 1001 invenções que mudaram o mundo (Jack Challoner, 2009, Sextante). Outros livros interessantes para se pesquisar são os que fornecem informações sobre a arquitetura e o vestuário da época. Outra sugestão é o site TV Tropes.org no qual livros/filmes/livros de RPG são destrinchados e que dão muitas ideias desenvolvimento de cenário e personagens.

Acredito que ainda dê para fazer com mais livros de referência e se rolar uma próxima esta poderá ser só com livros de RPG.
Nota: Não ganhei nenhum real na divulgação desses livros, ainda que boa parte deles eu tenha.

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