Entrevista – Gustavo César Marcondes, autor do Livro das Lendas

Gustavo César Marcondes é autor do Livro das Lendas, um RPG destinado a educação, já testado em várias escolas do Brasil. No próprio livro e na entrevista, é falado dos diversos tipos de matérias que podem ser abordados nesse livro. Nessa entrevista, o autor fala do uso de seu RPG na escola e do preconceito que há sobre o RPG. Veja mais sobre esse livro aqui

1) Gustavo, gostaria que você se apresentasse primeiramente. Quem você é, sua formação e quando começou a jogar RPG.

Meu nome é Gustavo César Marcondes, 33 anos, sou psicólogo educacional formado pela Universidade de Uberaba-MG. Durante 12 anos fui professor de química no ensino médio e cursos pré-vestibulares. Sou natural de Uberaba, mas atualmente resido em Goiânia-GO, onde me especializo na metodologia da arte de contar estórias na educação (Universidade Federal de Goiás).
Meu primeiro contato com o RPG foi em 95 quando um amigo me convidou para jogar. Desde então, começou minha paixão pelo jogo.

2) Quando surgiu a idéia da criação do Livro das Lendas?

A 4 anos atrás. Como professor, sempre percebia a dificuldade na assimilação dos conteúdos escolares, principalmente por parte dos adolescentes (coisa normal nessa fase). Eu conhecia a série mini Gurps, e a partir de um estudo minucioso dos RPGs mais conhecidos, tive a convicção de que poderia montar um sistema para abranger todos os conteúdos educacionais.
A partir desse momento foram pesquisas e mais pesquisas, testes e mais testes, até chegar ao produto final em agosto de 2004.

3) Gostaria que você explicasse um pouco do sistema.

O sistema tem a proposta de servir de suporte de regras para qualquer tipo de história, ambientada em qualquer época ou lugar, seja de pura fantasia ou de grande realismo. Por não ter uma ambientação fixa e apresentar uma grande flexibilidade, ele pode incorporar todas as ambientações imagináveis, permitindo inclusive a construção de aventuras didáticas contendo os conteúdos escolares.
O Livro das Lendas utiliza apenas 3 dados de seis faces cada, e privilegia amplamente a interpretação. Sua linguagem, extremamente simplificada, colabora para a melhor compreensão e assimilação de toda estrutura do jogo. Professores e alunos, em sua maioria, desconhecedores do RPG, terão a oportunidade de conhecer esse fantástico instrumento e avaliar sua importância para a educação.
Gostaria de enfatizar que esse sistema NUNCA substituirá uma aula teórica, ele poderá ser usado como um instrumento para auxiliar na melhor fixação dos conteúdos propostos, desenvolver a oralidade, a escrita, a socialização e cooperação, a pesquisa, o gosto pela leitura, sempre de forma divertida e inovadora.

4) Atualmente, o RPG vai sofrer uma grande leva de jogos para iniciantes como o RPGQuest, o Primeira Aventura e o Nexus D6, além do 3D&T que está no mercado a um bom tempo. Por que, na sua opinião, está ocorrendo essa ‘invasão’ de títulos assim?

É claro que existe toda uma questão de marketing para se vender mais, divulgando também, todo material já existente. Mas acredito que todo esse movimento vai muito além dessa intenção. Nós educadores, criadores e incentivadores desse estilo de jogo sabemos da real importância da leitura e como ela se relaciona com nossas atitudes do dia a dia. O RPG tem o “poder” de facilitar a formação de leitores e de todos os benefícios que o hábito de ler, expressar, com prazer, traz a sociedade. Jogos como esses, com certeza, levarão o conhecimento aos leigos, dando-lhes a oportunidade de quebrar seus preconceitos, participando de sua riqueza através do simples conhecer melhor.

5) Como um mundo medieval, como o Medievalis*, de sua autoria, pode ser usado na escola?

Bom, em primeiro lugar gostaria de corrigir um pequeno detalhe da pergunta. Medievalis não é um mundo, e sim um continente que faz parte de um mundo com realidades diversas. Quanto a se usar na escola, devo confessar que o sistema (O Livro das Lendas) nasceu das experiências que obtive dentro desse fantástico continente. Eu o escrevi primeiro e fui usando sua realidade para chegar em um sistema dinâmico e interpretativo, com poucas páginas e muitas idéias, como é o Livro das Lendas.

Medievalis é um livro-cenário para aventuras baseadas no Livro das Lendas. Ele foi desenvolvido com a intenção de gerar idéias, facilitar a elaboração de aventuras didáticas ou não. Espero poder lançá-lo até o final do ano.

Posso citar uma série de exemplos de utilização, como numa aventura que apresente uma catapulta, onde se pode calcular o alcance do disparo para atingir as muralhas de um castelo (Física). A manipulação de ácidos e bases por um alquimista, que pretende realizar experiências para proteger seu reino do ataque de um temível dragão (Química). O amplo conhecimento do clima, vegetação e relevo, poderá ser a única forma de sobrevivência numa região inóspita, rodeada de perigos (Geografia). Muitos outros exemplos são possíveis, associados a conteúdos de uma ou várias disciplinas por aventura.
Normalmente se monta uma aventura centrada nos tópicos que o professor está trabalhando.

6) Além do Livro das Lendas, qual sistema você recomenda para quem quer começar a jogar?

Gosto muito dos produtos da Daemon. Tenho certeza que o RPGQuest será uma boa opção para quem deseja conhecer melhor esse estilo de jogo. Gosto também do 3D&T, acho fácil e divertido, também uma boa pedida para os iniciantes.

7) Como foi a apresentação do livro à Editora Zouk?

Eu estava estudando o imaginário da adolescência na obra de um importante autor francês chamado Gilbert Durand. Durante minhas pesquisas tive a oportunidade de me corresponder com o doutor Altair Macedo L. Loureiro que estava lançando, junto com seus colaboradores, a obra chamada “O Velho e o Aprendiz”, baseada na teoria de Durand. Esse livro foi lançado pela editora ZOUK, que confesso, não conhecia anteriormente. Gostei muito da forma com que essa editora incentivava a produção de obras ligada a educação. Então resolvi enviar o livro, e apesar de ser um autor iniciante, minha obra foi muita bem recebida e conceituada.

8) Como as revistas de RPG podem tratar o assunto RPG & Educação?

Acredito que uma das melhores maneiras de tratar o assunto seria buscar e divulgar os vários projetos que vem sendo desenvolvidos em escolas e instituições utilizando o RPG. A divulgação dos passos seguidos, junto aos resultados já obtidos, poderia proporcionar melhor compreensão desse fantástico instrumento. A informação correta e minuciosa sempre estimula o aparecimento de novas iniciativas, diminuindo o preconceito.

9) Quais os melhores cenários para apresentar aos alunos?

Existem ótimos cenários hoje no mercado, mas acredito que para a área didática, o interessante seria utilizar cenários históricos, como os usados pelo mini GURPS; futurísticos que contenham elementos e projeções da nossa realidade; atuais que sejam flexíveis aos assuntos do conteúdo utilizado. Uma experiência muito interessante que venho desenvolvendo, é fazer com que os próprios alunos construam cenários a partir de informações que vem adquirindo dos próprios conteúdos escolares vistos.

10) Com o grande preconceito existente, como mostrar o RPG para um diretor de escola e professores?

Sem dúvida não é uma tarefa fácil. A falta de informação aliada ao comodismo fortalece e produz raízes ainda mais profundas no preconceito.
Eu costumo apresentar o projeto com naturalidade e firmeza. Procuro esclarecer todas as dúvidas, mostrar resultados já alcançados e estabelecer metas e objetivos. Sempre acreditei e continuo acreditando que o RPG é sinônimo de educação. Como tal deve estar presente nas escolas como um ótimo instrumento educacional.

11) Revistas e sites sempre deram destaque à adaptação de jogos, filmes e livros para o RPG. Já foi usado esse método para com seus alunos? É bom?

Tenho certeza que toda iniciativa desse tipo é válida. Dentro do mundo didático não poderia ser diferente. Cenários como o do Senhor dos Anéis ainda é um dos preferidos. Mas muitas vezes os alunos gostam, além de participar de aventuras, de criar cenários para aventuras; muitos deles inspirados em jogos de videogame e filmes. O resultado sempre foi muito bom. Abrir a possibilidade para que os jogadores construam seus próprios cenários e desenvolvam suas aventuras neles, vem proporcionando uma motivação ainda maior, um desenvolvimento sócio-cultural bastante surpreendente.

12) Qual foi a sua melhor aventura jogada numa escola?

Eu sempre costumo dizer que será a próxima. Foram muitas aventuras, não saberia dizer qual foi a melhor, pois foram momentos muito ímpares e importantes na minha vida. Cada grupo de alunos sempre recebeu muito bem o RPG didático me proporcionando um grande incentivo para desenvolvê-lo cada vez mais.

13) Gostaria que você deixasse um recado a todos daqui que estão lendo essa entrevista.

Gostaria de agradecer a todos os jogadores de RPG pela sua grande fidelidade a esse nosso incrível jogo. Que essa fidelidade ajude a converter todo preconceito daqueles ditos “conhecedores do jogo e da educação” em iniciativas realmente promissoras para uma educação mais voltada para área social. O RPG também pode tirar as crianças da rua, assim como o esporte. Não somos sós o país do futebol, também somos o país da criatividade!

14) Aonde o jogador ou o professor pode adquirir o livro?

No site da Editora ZOUK
Na Saraiva
Na Spellstore

* Livro a ser lançado futuramente, pela editora Zouk (site acima)

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