Entrevista: Marcelo Rodrigues do projeto Tagmar II

Tagmar foi o primeiro livro a ser publicado por RPGistas brasileiros, isso no distante ano de 1991 chegou a ter vários suplementos e aventuras. Agora, ele volta com uma nova versão com o sistema atualizado aos atuais e distribuído gratuitamente.

Marcelo Rodrigues foi um dos autores do primeiro Tagmar e volta a tona com essa nova versão. Tagmar 2 já possui uma comunidades no Yahoo e uma no MSN Groups para discutir os temas principais, comunidades no orkut e a criação de uma versão adaptada para o sistema Daemon.

Começando com uma pergunta clássica: Como você começou no RPG?

Sou da geração Xerox, e comecei em 1985 com AD&D (versão 1!). Conheci e joguei mais alguns RPGs da época, tais como o Rolemaster, StarFrontier, mas era fissurado pelo AD&D. Depois passei a jogar Tagmar e Millenia… Em 1996 me afastei do mundo do RPG e só retornei a alguns anos.

Antigamente tínhamos várias editoras no Rio de Janeiro como a Akritó, a GSA e a Ediouro. Por que, na sua opinião, atualmente não há nenhuma?

Sinceramente não sei… A GSA terminou porque o retorno financeiro era muito pequeno, pois as vendas eram baixas, se comparadas as publicações tradicionais de livros. Livro era uma coisa cara de produzir e precisava de vendas altas para dar um bom retorno. Agora que retornei aos RPGs, fico admirado como publicações de alta qualidade, conseguem sobreviver.
Tenho escutado muitos boatos sobre possíveis quebradeiras nas editoras atuais, mas acho que são apenas boatos, pois são empresas bem mais maduras. O pioneirismo tem um preço alto, e sofremos muito com a inexperiência em produzir, vender e de ter bons resultados financeiros.

Qual a participação dos autores originais no Tagmar 2?

Com participação ativa no momento somente eu. O Ygor está cadastrado no grupo, mas anda muito sem tempo e não está participando ativamente do projeto. Já foi um milagre ter contatado tanta gente para obter a autorização da liberação dos direitos autorais.

Na versão do Tagmar2 disponibilizada na internet, há apenas as ilustrações da Eliane “Lillith” Bettocchi, mas não está disponível nenhuma ilustração suas e dos outros ilustradores?

Na verdade tem sim ilustrações de outras pessoas. Tem a do Luis Bert e do Jorge Dukenko. Quando disponibilizamos os arquivos para Download não tínhamos colocado os créditos corretos. Já corrigimos isto. Na versão 2.0 não estavam sendo planejadas ilustrações. As ilustrações só estão planejadas para as versões 2.1 em diante.

Porque o uso da licença da Creative Commons e não da OGL?

No inicio do projeto eu já conhecia o licenciamento da Creative Commons e não tinha tido acesso a OGL em português. O ponto fundamental é que os licenciamentos da Creative Commons são escritos em versões para varias línguas e para a legislação do país escolhido. Aqui no Brasil é a Fundação Getúlio Vargas que está apoiando esta iniciativa da Creative Commons. Outro fator é que a Creative Commons disponibiliza em português a mesma licença em dois modelos: uma já nos termos legais brasileiros e outra numa versão resumida para leigos. Assim, colocamos a versão resumida nos livros e colocamos o endereço de onde encontrar a versão detalhada.
Outro aspecto é que além de ser semelhante à OGL, a Creative Commons oferece diversos modelos de licenciamento, neste caso, escolhemos a “Atribuição-Uso Não-Comercial-Compatilhamento pela mesma licença 2.0 Brasil”.

Há um tempo atrás o projeto foi anunciado como uma versão para D20, mas isso acabou não sendo efetivado, o que aconteceu?

Nosso projeto se baseia em princípios democráticos, e as decisões são tomadas através de votações. No inicio do projeto fizemos uma votação para decidir se abandonaríamos o sistema do Tagmar ou se iríamos melhorá-lo; venceu a proposta de melhorar o sistema. Mas votamos também por gerar uma versão do Tagmar para outros sistemas (incluindo D20). Nesta votação ficou decidido que iríamos fazer isto, mas só mais a frente. A licença que foi concedida pelos autores do Tagmar permite que qualquer um faça adaptações, desde que siga a forma de licenciamento.
Agora ficou só a dúvida do que você fala de “tempos atrás”, se for anterior a set/04, então esta iniciativa era de outra pessoa. Há vários anos atrás, recebi uma proposta de liberar o Tagmar para ser portado para outro sistema, mas a pessoa queria fazer um projeto comercial, mas não queria pagar direitos autorais! Eu disse não…

Mesmo com o título sendo tratado como não comercial, existe alguma chance de vermos publicado um dia o Tagmar 2 como livro?

Existem duas chances: a primeira é a novidade tecnológica da “Impressão sob demanda”, que permite que qualquer um possa imprimir o Tagmar 2 em qualidade gráfica a um custo semelhante dos RPGs tradicionais. Esta modalidade não fere a licença, pois cada um estará imprimindo o livro para si próprio, não para comercialização.
Há diversos lugares que fazem este tipo de serviço, inclusive alguns aceitam pedidos de impressão pela internet. Basta mandar os PDFs que eles imprimem.
A qualidade é surpreendente: capa colorida, impressão de qualidade, encadernação profissional (lombada costurada). Outra opção é obter a autorização dos autores, já que a licença permite que os autores possam abdicar de algum termo, mas como o Tagmar 2 tem uma quantidade alta de autores (mais de 30!), fica difícil obter a autorização de todos. Para obras baseadas somente nos textos do Tagmar 1, a autorização é mais fácil, pois são poucos.

Na introdução do netbook há uma crítica ao “complexo de vira-lata” do brasileiro em relação ao Tagmar 1, porque houve isso? O RPGista brasileiro já “nasce” com indisposição contra os RPGs nacionais?

Essa definição feita por Nelson Rodrigues é perfeita, pois infelizmente, o brasileiro possui uma predisposição a valorizar mais o que vem dos outros países. Em relação ao Tagmar 1, o sistema recebeu diversas críticas. Algumas eram verdadeiras (tanto que foram revistas no Tagmar 2), outras completamente infundadas. Isso acontecia pelo simples fato de ser um sistema totalmente criado e desenvolvido no Brasil.
Mas, felizmente, os conceitos dos RPGistas brasileiros vêm mudando gradativamente ao longo desses anos. Hoje temos bons sistemas de regras, como o Daemon e o Opera, e boas ambientações, como a do Trevas e a do Tormenta. Todos estes, muito bem aceitos no mercado.

No Tagmar 2 há bem menos tabelas que no Tagmar 1, essas tabelas eram muito criticadas na primeira versão, essa diminuição foi para diminuir as críticas em relação ao primeiro?

Na época do lançamento do Tagmar, ter muitas tabelas e rolar muitos dados para fazer um personagem era considerado divertido. O pessoal amava aqueles exóticos dados poliédricos. Tagmar nasceu com o espírito dos RPGs dos anos 80, mas as coisas mudam, e as pessoas passaram a gostar mais da ambientação e interpretação do que das regras. Esta redução nas tabelas faz parte desta necessidade de modernizar o Tagmar. Reduzimos a necessidade de rolar dados de tal forma, que agora se faz uma ficha do personagem sem nenhum rolamento, tudo por um sistema de pontos. Eliminamos tabelas, que podiam ser substituídas por formulas simples, como foi o caso da tabela de pontos de aprendizagem de magia.
O capítulo de combate sofreu a mudança mais radical, sem praticamente alterar regra nenhuma! Na verdade, reunimos as informações que estavam espalhadas em várias tabelas em um grande tabelão. Aproveitamos para reequilibrar varias regras, reescrevemos algumas e incluímos outras. Uma mudança marcante presente no Tagmar 2, é a especialização das profissões. Era um conceito que já existia nas profissões de Mago e Sacerdote, que expandimos para as outras profissões. Para magos existiam os Colégios, para Sacerdotes existiam as Ordens. Agora existem as Guildas para os Ladinos (novo nome da profissão Ladrão) e as Academias, para Guerreiros. Vamos fazer também especializações para Bardos e Rastreadores, mas não sei se ficarão prontas para a versão 2.1, mais provavelmente para a versão 2.2.

Poderemos ver o Tagmar 2 disponível em outros sistemas como D20, GURPS e Daemon?

Sim, claro! Inclusive, neste momento, já está em andamento o projeto paralelo do Tagmar-Daemon. Ambientação do Tagmar 2, na verdade, é a ambientação do Tagmar 1, só que expandida. Ela agora contempla centenas de páginas com descrições de Reinos e de toda a mitologia do Tagmar. É um trabalho impressionante e monstruoso! O grande barato é que ela é independente de sistema e pode ser usada livremente por qualquer um. Tão logo saia o Tagmar para outros sistemas, vamos fazer com que as Aventuras Prontas e o Livro de Criaturas sejam multi-sistema, semelhante ao brilhante trabalho do Del Debbio no Guia de Armas Medievais.

Por quê ocorreu a divisão da criação do projeto em duas atualizações?

O Projeto já estava fazendo um ano e todos estávamos ansiosos por poder jogar o Tagmar 2. Uma demora excessiva poderia comprometer não só a credibilidade do projeto, como também já estava influenciando negativamente os ânimos dos participantes. Decidimos então, liberar a parte das regras, para que todos pudessem jogar enquanto nós nos concentramos no restante: Ambientação, Aventuras e Criaturas. O projeto foi inspirado no modelo de desenvolvimento de software. Por este modelo, vamos lançando versões sucessivas, aonde cada uma vai aumentado e melhorando o RPG. O Tagmar 2.0 já contém todas as grandes modificações do sistema, e nas versões posteriores (2.1, 2.2…) estaremos apenas incluindo coisas que ficaram de fora, e fazendo revisões (correções) do que já foi lançado. Não há o perigo de estarmos alterando algo de forma radical, não que isto não possa ocorrer, mas por enquanto, não está nos nossos planos fazer um Tagmar 3.0. O que estamos fazendo, é a cada mês lançar algum complemento para o Tagmar 2, este sim é um bom desafio.

Talvez o último livro a ser produzido para Tagmar tenha sido o Guia de Armas Medievais pela Daemon Editora. Como você avalia esse livro?

Adorei o livro, inclusive o adquiri. Pena que nesta última versão não tem mais as estatísticas para o Tagmar, mas acho bastante compreensível, já que esta edição é anterior ao projeto Tagmar 2.
Espero que na próxima versão seja incluída as estatísticas para o Tagmar 2.

Existe alguma maneira de tornar o sistema de Tagmar 2 genérico?

Acho pouco provável, mas não digo que seja impossível. Por enquanto, não está nos nossos planos.

Qual a chance de vermos novamente a volta dos outros títulos da GSA como Desafio dos Bandeirantes e Millenia?

Aí vai depender dos autores destes RPGs e de pessoas dispostas a dar uma renovada neles. Foi nossa opção mantermos a base do sistema do Tagmar 1, e isto não precisa ser assim para estes dois RPGs, que se destacam mais pela Ambientação do que pelo sistema. Assim, tem-se duas opções: ou renova-se os sistemas ou adota-se algum sistema que seja aberto.

Qual é a repercussão recebida por você em relação aos jogadores e mestres do antigo Tagmar?

Na maior parte dos casos, as pessoas adoraram, mas há casos de pessoas que dizem preferir o sistema antigo. Mantivemos o máximo possível do sistema original, mudando apenas os pontos que realmente eram considerados problemáticos. Passamos muitos meses sem produzir nada, apenas discutindo e votando quais mudanças seriam implementadas.
Escutamos tanto as pessoas que gostavam do Tagmar, quanto as que não gostavam. Fizemos muitos playtestes abertos ao público, onde coletamos informações preciosas, que nos permitiram obter um ótimo resultado. Escutamos as críticas e atacamos os problemas… E continuamos a fazer isto! O Tagmar 2 não tem um comprometimento de ser estático, ele está sempre em contínua evolução.

Existe ainda alguma barreira a derrubar no projeto?
Acho que temos 3 grandes desafios: o primeiro é acabar com preconceito contra o que é nacional. Temos excelentes escritores e criadores de RPG, e devemos valorizar a iniciativa nacional. Já vi muita porcaria importada ser elogiada. O segundo desafio é conscientizar a galera criativa, que eles podem produzir algo de original! Temos alguns novos talentos que estão mostrando seu potencial através deste projeto.
Estamos muito abertos para as pessoas que querem participar e colaborar, o Tagmar 2 é o 1º RPG Brasileiro 100% gratuito e mantido pelo processo de criação coletiva. E o terceiro desafio, é fazer que as pessoas acreditem que RPG Gratuito é uma iniciativa viável, e que dá certo.
Software gratuito já passou por este caminho, e hoje ninguém mais duvida dele. Chegou a vez do RPG…

Marcelo, muita sorte no projeto! Aguardamos sempre novidades!

Muito obrigado. E podem esperar mesmo, pois estaremos sempre trabalhando duro para melhorar o Tagmar 2!

Só quero que as pessoas saibam, que o Projeto Tagmar 2 conta apenas com trabalho voluntário e não é um projeto comercial, logo, não visa disputar mercado com outros títulos, sejam eles quais forem. Nossa missão é disponibilizar ao RPGista brasileiro uma outra opção, um RPG de qualidade a baixo custo. Tudo para popularizar ainda mais nosso amado hobbie.

Um pensamento sobre “Entrevista: Marcelo Rodrigues do projeto Tagmar II

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s